O Manejaí Salvaterra é o quinto espaço para troca de experiências e capacitação de multiplicadores. Cerca de 300 famílias e três mil pessoas já foram beneficiadas

No “barracão” da comunidade Monsarás, em Salvaterra (PA), visitantes de outras comunidades, representantes de entidades internacionais e lideranças de outros quatro Centros de Referência Manejaí se uniram em roda para dialogar, se conhecer e trocar experiências. O momento marcou a inauguração do Centro de Referência em Manejo, Conservação e Restauração de Agroecossistemas Manejaí Salvaterra, no último sábado (15), de forma alinhada à proposta do local.

A ressignificação do “Espaço Diálogos” como “barracão” também mostra, na oralidade, a apropriação que a iniciativa Manejaí busca estimular – o nome, inclusive, foi definido em votação, a partir de sugestões locais. Inicialmente combinando Marajó, manejo e açaí, o projeto une diálogo para troca de saberes tradicionais, construções coletivas e capacitação de agentes multiplicadores para levar informação técnica às comunidades.

Considerando o perfil produtivo e as necessidades locais, o Manejaí Salvaterra abriga Unidades de Referência Tecnológica (URTs) em áreas como meliponicultura; saneamento básico rural; sistemas agroflorestais; quintais produtivos; processamento de frutas, especialmente do açaí; e manejo de mínimo impacto do açaí. Os componentes variam de local para local.

O Manejaí Salvaterra tem o envolvimento de seis comunidades, que abrigam 20 famílias; além de 19 comunidades quilombolas, com 40 famílias, totalizando quase mil famílias beneficiadas direta ou indiretamente no processo de construção dessas relações. Ronildo Pacheco, anfitrião do espaço onde fica o centro de referência, reforçou a intenção de permanência na área a partir do projeto. “Saibam que aqui tem um povo que trabalha, um povo que sustenta não somente a comunidade local, mas também que ajuda a alimentar esse Brasil a fora”, disse.

Na roda de conversa, todos os presentes tiveram oportunidade de fala. “O Manejaí é tudo. Não é só o açaí. É cuidar das florestas, das pessoas, do meio ambiente, da nossa água, dos nossos pássaros. É buscar o desenvolvimento para que tudo isso possa acontecer”, disse Teófro Gomes, do município de Portel, onde foi instalado o primeiro centro Manejaí.

Ele também reforçou a importância das pessoas conhecerem uma iniciativa que partiu de uma comunidade. “Mostrando para o mundo a nossa capacidade para fazer o trabalho acontecer”, acrescentou. E valorizou o apoio dos parceiros, especialmente na facilitação ao acesso ao conhecimento técnico; e a importância do olhar entre as comunidades de igual para igual.

“Para nós, esse projeto foi a luz que surgiu no fim do túnel e que estamos dispostos a levar adiante. É política pública de verdade que chega na comunidade”, avaliou o agricultor Marcelo Fernandes, ao relatar a transformação que o Manejaí levou a sua comunidade, no município de Bagre.

Como o Manejaí funciona?
Segundo o pesquisador Anderson Sevilha, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, esses centros de referência representam um experimento de desenvolvimento metodológico realizado desde 2018. A ideia é fomentar um negócio comunitário baseado nos saberes locais, com algumas tecnologias inseridas ao longo do processo.

Cada unidade do Manejaí tem início com a formação de 30 facilitadores atuantes, como lideranças locais, técnicos de associações e cooperativas, professores e colaboradores de universidades. “Mas tem muito mais pessoas capacitadas”, reforça o supervisor do Núcleo de Apoio à Pesquisa no Marajó Embrapa Amazônia Oriental, César Andrade. A capilaridade vem por meio das relações entre as comunidades.

A iniciativa também preconiza a formação da juventude e abriga um coletivo de mulheres que cria receitas à base de produtos da sociobiodiversidade e do agroextrativismo. De acordo com César, ações de agregação de valor são realizadas por meio da cooperação com agroindústrias já instaladas para processar a polpa do açaí, mas inserindo os saberes e as histórias das comunidades nos produtos. “Não dá só para produzir, tem que agregar e fazer todo o processo no local para a renda ficar na comunidade”, acrescenta.

Segundo o presidente da Cooperativa Agropecuária e Pesca Artesanal de Monsarás (Coopapam), Carlos Vicente, entidade local que ajudou a construir o centro de referência, a restrição de opções para comercialização dos produtos locais foi justamente um dos fatores que motivou a formação da cooperativa. “Nos unimos e conseguimos captar recursos, fazer parcerias, e agora estamos vendo o resultado dessa união”, afirmou. O açaí, inclusive, já faz parte da merenda escolar local por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Experiência em comunidade
Na recepção e entre os momentos de diálogos, a dança do carimbó pelas crianças da comunidade e a apresentação musical pelo Grupo Harmonia Marajoara marcaram a atividade. Os cerca de 200 visitantes, de diferentes estados brasileiros e países, também foram recebidos com exposição e degustação de produtos da agricultura familiar local, processados e in natura, além de almoço comunitário preparado com alimentos produzidos ou extraídos localmente.

Primeiro contrato de crédito é assinado em Salvaterra
A inauguração também marcou a assinatura para concessão de crédito a uma das famílias da comunidade com a Rede de Ativadores de Crédito Socioambiental (CrediAmbiental), ligada ao Instituto Conexsus – entidade que fomenta ecossistemas de negócios de impacto socioambiental, especialmente de base comunitária – e ao projeto Marajó Resiliente. A região deve contar com dez técnicos ativadores de crédito para fazer a ponte entre outros agricultores e políticas de crédito rural.

Lidiane, primeira beneficiada no município de Salvaterra, já tem produção diversificada, mas queria investir em um novo componente dentro da cesta de alimentos que produz com a criação de pequenos animais. “Vivemos de oportunidades em nossas vidas. Agradeço a oportunidade de tirar um sonho do papel e pôr em prática. E por ser a primeira pessoa a agarrar essa oportunidade”, celebrou.

Mais de três mil beneficiados no desenvolvimento de valor na Amazônia brasileira
Considerando os cinco centros de referência já instalados nos municípios paraenses de Portel, Muaná, Bagre, Breves e, agora, Salvaterra; o Manejaí já beneficiou cerca de 300 famílias e três mil agricultores, pescadores e quilombolas. A intenção ainda é expandir para comunidades indígenas e para outros quatro municípios, que já demandaram a inclusão. O trabalho também já capacitou cerca de 160 agentes multiplicadores.

A instalação desses espaços é resultado do projeto Sustenta e Inova, coordenado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com a Embrapa, instituições locais e comunidades ribeirinhas; e financiamento da União Europeia. A iniciativa busca desenvolver e implementar práticas agrícolas sustentáveis e inovadoras, além de promover o desenvolvimento das cadeias de valor na Amazônia brasileira.

No ato de inauguração, ainda participaram representantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

Com informações de Embrapa | Fotos: Saulo Coelho