Em Altamira, a iniciativa Ecoplante utiliza papel descartado para criar folhas plantáveis, integrando criatividade e sustentabilidade num dos ecossistemas mais frágeis do mundo.
ALTAMIRA, PARÁ – No coração da Amazônia, onde os desafios ambientais e a pressão do desenvolvimento são constantes, uma pequena empresa está a provar que a inovação pode brotar dos lugares mais inesperados. Em Altamira, a empreendedora Alessandra Moreira fundou a Ecoplante, um projeto que transforma papel reciclado em folhas plantáveis que dão origem a flores, hortaliças e espécies nativas da região.
O que começou como um processo pessoal de cura e terapia para Alessandra, evoluiu para um exemplo prático de economia circular. A produção é feita de forma artesanal no quintal da sua casa, utilizando equipamentos simples construídos com materiais do cotidiano.
O Processo de Transformação
O ciclo de produção da Ecoplante é um convite à sustentabilidade:
Recolha e Trituração: papéis que seriam descartados são recolhidos e transformados numa polpa através da mistura com água.
Moldagem: a massa é espalhada sobre telas de malha fina para remover o excesso de umidade.
Inclusão de sementes: antes da secagem, sementes de manjericão, rúcula, margaridas e até plantas locais são incorporadas nas fibras do papel.
Secagem ao Sol: as folhas secam naturalmente ao ar livre, resultando num papel funcional que aceita escrita e impressão.
Ao contrário do papel comum, que acaba em aterros e lixeiras, o papel da Ecoplante tem um destino regenerativo. Após o uso, basta rasgar o papel e colocá-lo sob uma camada de terra e regar. Com o tempo, ele decompõe-se e as sementes germinam, transformando o resíduo em nova vegetação.
O Desafio da Floresta Nativa
Embora a produção com sementes de climas temperados (como rúcula e margaridas) já esteja consolidada, o grande objetivo da Alessandra é expandir para a flora amazônica. Trabalhando em colaboração com grupos extrativistas locais, a Ecoplante já obteve sucesso na criação de papel com sementes de jambu,a famosa erva paraense conhecida pelo seu efeito de dormência na boca.
O desafio é técnico: sementes de árvores nativas da Amazônia costumam ser maiores e possuem ciclos de germinação mais complexos do que sementes de horta. No entanto, a determinação da empreendedora é clara: utilizar o papel reciclado como um veículo para reflorestar a região e sensibilizar a população local sobre a importância da preservação.
Sustentabilidade no quintal
A iniciativa destaca-se por mostrar que o empreendedorismo sustentável não exige sempre grandes investimentos ou tecnologia de ponta. Numa cidade como Altamira, marcada por grandes impactos ambientais, a Ecoplante surge como um símbolo de esperança, provando que é possível transformar desperdício em vida e espalhar as “sementes do crescimento” de uma forma consciente e harmoniosa com a floresta.
